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Natais

por MC, em 29.12.16

 

Algures numa rua de Lisboa em 1912, Joshua Benolie

 (Rua de Lisboa no Natal de 1912, foto de Joshua Benoliel)

 

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.

David Mourão-Ferreira
 
 
 
 
 

 

 

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publicado às 22:48

Technicolor

por MC, em 27.11.16

Ficou gravado em Technicolor na minha memória o dia em que, pela primeira vez, vi um filme “a sério”- sem ser de desenhos animados – num écran de cinema. Não me lembro que filme era, mas recordo a imponência solene da sala, os lustrosos cadeirões de veludo, a luz suave dos apliques a derramar sombras oblíquas nas paredes altas.

De todas as grandezas que esmagavam a minha pequenez, as cores do filme assoberbaram-me de admiração e curiosidade por toda a eternidade da infância. Durante muito, muito tempo, acreditei que a noite tinha uma cor diferente nos outros países, lá longe, onde os filmes e os sonhos eram feitos.

Quando, poucos anos mais tarde, atravessei a fronteira pela primeira vez na vida para ir a Sevilha - grande cliché, eu sei – rezei fervorosamente para que se fizesse noite antes do regresso, mortinha que estava para apurar se a noite espanhola teria mesmo aquele azul anil e vibrante dos filmes do Condes. Não tinha.

Fiz a viagem de regresso pensativa e sorumbática, no banco de trás do Vauxhall do tio Francisco, rodeada de risos fáceis e caramelos de piñones, a rever evidências e a cismar no meu estrondoso falhanço teórico. Acordei, dormente e babada, à porta de casa. A aragem fresca da madrugada borrifou-me de espertina e lucidez.

Aninhada já na realidade imutável dos lençóis, consegui mesmo rir-me de mim própria, da minha patetice crédula de miúda simplória. Era óbvio - ÓBVIO – que a noite em Espanha não seria diferente da portuguesa: pois então não se vê logo que a Espanha é mesmo ao lado, estamos aqui coladinhos, na mesma península? Pois não é clarinho como água que a Espanha não conta?

E lá consegui acarinhar o sonho durante mais algum tempo, antes de voltar a embater de frente, uma e outra vez, com o meridiano da realidade. Ainda hoje - tantos anos depois - me sucede, por vezes, naqueles momentos de torpor mágico a seguir a um bom filme, de acreditar que sim senhor, as coisas são tal e qual como nos mostram.

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publicado às 14:47

A filha

por MC, em 22.09.16

Tenho uma filha pequenina, matreira e travessa como todas as outras. A minha filha é franzina e frágil, tem o rosto sulcado dos trilhos do tempo e os olhos pequeninos e fundos lançam fulgores de alegria ou contrariedade, na ligeireza em que se gasta um fósforo. A minha menina tem a pele toda enrugada, como se os anos a tivessem amarrotado, ao pousar nela, maciços e descuidados, o seu peso inexorável.

Enche-me de cuidados, esta minha filha. Às vezes, acredito que está sossegada na madorna quente do sofá e quando vou por ela, valhamedeus, não se acha em lado nenhum, o coração dispara-me como uma fisga. Procuro, espavorida, que é dela, que é dela, alvoroço a casa, incomodo a vizinhança, um desassossego. Às vezes, vejo-a por fim assomar ao fundo da rua, confiante e feliz, com um qualquer braçado de flores ou uma mão cheia de amoras. Amua, desconcertada, se lhe ralho por ter saído sem avisar. “Era o que faltava”, resmunga baixinho, com os lábio hirto quase a chegar ao nariz, “a pessoa agora não poder fazer a sua vida… era o que faltava…”, lá vai desfiando queixumes, até se esquecer da birra.

De vez em quando, vou dar com ela parada junto à sebe da escola, a cismar nas brincadeiras dos meninos. Outras vezes, encontro-a sentada num banco do parque, a discursar, desenvolta, para uma qualquer plateia que só ela vê. É sempre surpreendente, a imaginação da meninice. Ocasionalmente, nestes seus giros a despropósito, cai e magoa-se. Encontro-a choramingona, de joelhos esfolados e ombros a tremer. É escusada a zanga, em alturas assim. É dia de mansa repreensão, enquanto se desinfecta o dói-dói.

É caprichosa, esta minha filha. É costume agora torcer o nariz à alface, aos agriões, aos espinafres e aos brócolos. Que não, que lhe fazem mal, dão dores de barriga. Cai-lhe uma tristeza fiteira no olhar, os ombros descaem, os suspiros brotam como lágrimas. Ai, que já nada lhe sabe bem, queixa-se a minha filhinha. Dou com ela a horas impróprias, sentada na cozinha, a comer doçuras. Amiúde encontro a lata dos biscoitos estrategicamente entrincheirada entre as almofadas do sofá e sei, de fonte segura, que o pacote das gomas desaparecido há dias repousa agora, esventrado, na gaveta das meias de uma determinada pessoa.

Às vezes canta, a minha menina. Começa num cantarolar baixinho e frágil como ela própria. Depois, a voz enche-se-lhe de uma força que já teve e materializa-se nela a mulher que foi. E canta com viço e destemor, com o mesmo ímpeto com que outrora lidou de sol a sol, ergueu e escorou uma casa e uma família. Nessas alturas, dá gosto ouvi-la, a minha filha velhinha. Esses são os dias felizes. 

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publicado às 23:22

Andorinhas

por MC, em 14.09.16

Hoje voltaram as andorinhas. Oxalá continuem sempre a voltar. Oxalá continuem, com a sua imensa generosidade, a permitir-me viajar à boleia nas suas asas, ainda que por breves instantes, ao reino onde todas as coisas são possíveis.

 

voar 2.jpg

 

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publicado às 19:18

Voar

por MC, em 10.07.16

futebol.jpg

 (Futebol na Rua, de Gérard Castello Lopes, 1958)

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publicado às 18:41

Lisboa

por MC, em 15.06.16

electricos.jpg

 Da luz que os meus olhos vêem, tão pura.

 

(O início acompanha-nos sempre). 

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publicado às 23:49

Marketing

por MC, em 27.03.16

“Ó madrinha”, diz-me a minha afilhada caloira, “estou a gostar muito da universidade: o curso está a ser muito giro e alguns professores são mesmo bons, fazem-nos pensar”. Olha que coisa boa, professores que fazem pensar, matutei eu, e não resisti à alfinetadazinha: “e não estavas habituada, não?”

Acusou o toque com um sorriso rasgado, ou não convivesse ela há quase duas décadas com o sarcasmo intrínseco desta sua madrinha-mãe do coração, a primeiríssima pessoa a recebê-la neste mundo.

“Oh… não é isso!”, reclama ela teatralmente, e sente-se na obrigação de exemplificar: "olha, há uma aula - que é a minha preferida – em que o professor, no início da aula, em vez de começar a ensinar coisas da disciplina, conta uma história. Mas assim histórias muito simples, como as que se contam às crianças – nós ao princípio até pensávamos que era ele a gozar connosco. Só que depois começa a pôr questões, a colocar hipóteses, a perguntar a nossa opinião sobre a situação lá da história e quando damos por ela, pimba! – já estamos a dar matéria!” 

Sorrio para ela, um sorriso silencioso que espelha a alegria do seu olhar e a incentiva a continuar: “no primeiro dia de aulas, ele chegou e nem sequer disse bom dia, começou logo a contar: era uma vez um fabricante de sapatos que andava a vender pouco e resolveu contratar vendedores para espevitar o negócio. Apareceram-lhe dois candidatos para a entrevista de trabalho. O homem disse-lhes que procurava bons vendedores de sapatos e que iria fazer um teste para perceber se algum deles poderia desempenhar aquele cargo. Falou-lhes de uma região distante e inóspita onde nunca tinha tentado comerciar e incumbiu-os de ir avaliar as possibilidades de vender sapatos aos habitantes de tal lugar. Os dois candidatos lá foram cumprir a sua tarefa e voltaram uns dias mais tarde. O primeiro a regressar disse ao futuro patrão: ‘olhe, o melhor é procurar outro lugar para vender: aquela região é praticamente um deserto, as pessoas andam todas descalças na areia, ninguém usa calçado e, portanto, vai ser muito difícil vender sapatos lá.’ Depois chegou o segundo candidato, que declarou: ‘olhe, aquela região é uma mina! O local é praticamente um deserto, as pessoas andam todas descalças na areia, ninguém usa calçado e, portanto, podemos lá vender sapatos a todas as pessoas!’”

Tás a ver, madrinha, ele contou-nos esta história e depois ficou em silêncio a olhar para nós. E nós para ele. E depois disse: ‘todas as pessoas nesta sala que acham que o primeiro candidato tinha razão não estão a fazer nada neste curso. Podem ser muito bons alunos e estudar muito e ter muito bons resultados académicos, mas não vão ser felizes neste curso. Dou-vos a possibilidade de sair antes de vos maçar mais.’ Mas ninguém saiu, madrinha. Até hoje ninguém saiu”.

Estivesse lá eu, cismei, seria a primeira a sair. Sou a pior vendedora do mundo. Sou incapaz de vender seja o que for a alguém. Nada. Nem uma ideia, nem uma caixa de fósforos. Falta-me a lábia, a segurança dos modos, a vontade de argumentar. Uma miséria. Estivesse a minha sobrevivência dependente dos meus dotes de vendedora e muita fominha havia de passar.

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publicado às 02:50

Estendais antigos

por MC, em 20.10.15

escola santa clara 1930.jpg

Escola Primária, Tribunal Militar, Jardim de Santa Clara, 1930 (tantos anos antes).

(daqui) 

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publicado às 23:52

Thanksgiving

por MC, em 06.10.15

Nascida de uma mãe camponesa iletrada, maciça e resistente como um carvalho beirão e de um pai transmontano, nado e criado nos rigores das fragas e da míngua, habituado a palmilhar as serras para chegar à escola, dormente de frio e cansaço, escassa seria a probabilidade de ter trazido as letras dentro de mim. 

Esta afirmação mais não é do que a constatação de uma circunstância inusitada ou improvável. Não contém um pingo de melindre ou de queixume. Pelo contrário, nasci numa época extraordinária e tive acesso à mais generosa das instruções: ensinaram-me a ler e mostraram-me a existência de livros.

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publicado às 23:26

Olive Kitteridge

por MC, em 14.09.15

Acabei de ver o segundo episódio de "Olive Kitteridge" e confirma-se. É soberba. Estou oficial e irremediavelmente arrebatada. A Frances McDormand consegue (mais uma vez) ser sublime e maravilhosa e inovadora(não-confundir-com-surpreendente)mente talentosa. 

 

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publicado às 23:42


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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